Conflito. A palavra, por si só, já desperta algo no corpo — uma contração, uma resistência, talvez um cansaço antigo. Passamos a vida tentando evitar conflitos, apagar conflitos, fingir que eles não existem — e quando isso não funciona, culpando o outro ou a nós mesmas pela sua existência.
E se eu te dissesse que essa relação inteira com o conflito está baseada num equívoco fundamental? Que o conflito, longe de ser a prova de que algo está errado num relacionamento, pode ser exatamente o sinal de que algo importante quer ser dito, ouvido, integrado? Que o conflito, quando atravessado com ferramentas e consciência, pode ser a porta de entrada para uma conexão mais profunda, mais honesta e mais duradoura do que a que existia antes?
É sobre isso que escrevi em Elos Emocionais: Do Conflito à Conexão — meu segundo livro, lançado na 96ª Feira do Livro de Lisboa em 05 de junho de 2026.
A origem do livro: o que os relacionamentos me ensinaram
Após o lançamento de Incrível Mente Mulher em Portugal, a pergunta que mais recebi — nas redes sociais, nos eventos, nas mensagens de leitoras — não era sobre autoconhecimento individual. Era sobre relacionamentos. "Como aplicar isso com meu parceiro?" "Como usar essas ferramentas nos conflitos com minha mãe?" "Como transformar minha dinâmica com meus filhos?"
A demanda era clara. E ela ecoava algo que eu já vinha observando na clínica há anos: o sofrimento mais intenso que as pessoas carregam raramente é solitário. Ele acontece em relação — nas brigas que se repetem sem resolução, nas conversas que ficam presas na garganta, nas distâncias que crescem silenciosamente dentro de casas que deveriam ser espaços de encontro.
Decidi, então, escrever um livro que fosse diretamente ao coração desse sofrimento — não para eliminar o conflito das vidas das pessoas, mas para transformar a relação que elas têm com ele.
"O oposto do conflito não é a paz — é a superficialidade. Relacionamentos sem conflito são relacionamentos onde ninguém se arrisca a ser visto de verdade."
O conceito central: o que são "elos emocionais"?
O título do livro carrega seu conceito mais fundamental. Um "elo emocional" é a conexão invisível — mas poderosamente real — que une duas pessoas através de suas histórias emocionais. Não nos relacionamos apenas com quem a outra pessoa é hoje; nos relacionamos com tudo que ela carrega de suas experiências passadas — seus medos aprendidos, seus padrões de apego, suas estratégias de sobrevivência emocional. E ela se relaciona com tudo isso em nós.
Quando dois sistemas emocionais se encontram — com toda a sua complexidade, seus pontos cegos e suas histórias não resolvidas — o conflito é inevitável. Não por má vontade, não por incompatibilidade, mas porque é impossível que duas pessoas com histórias diferentes naveguem a vida juntas sem que essas diferenças apareçam. A questão não é se o conflito vai surgir. É o que acontece quando ele surge.
O conceito de "elos emocionais" sugere que esses momentos de tensão são exatamente onde os elos se formam — ou se rompem. Dependendo da qualidade da resposta ao conflito, ele pode criar distância ou criar intimidade. Pode endurecer os papéis ou revelar a vulnerabilidade que, quando acolhida, aprofunda o vínculo.
O que a neurociência nos ensina sobre conflito
Uma das revelações mais libertadoras que a neurociência trouxe para o campo dos relacionamentos é que as reações que temos em conflito raramente são sobre o conflito em si. São sobre o que o conflito ativa no nosso sistema nervoso — memórias, ameaças percebidas, necessidades fundamentais que não foram atendidas.
Quando estamos em conflito com alguém próximo, a amígdala — nossa central de alarmes neurológica — entra em ação com uma velocidade impressionante. Ela avalia a situação em frações de segundo e, se percebe ameaça (mesmo que seja apenas um tom de voz familiar, um silêncio que lembra outro silêncio do passado), dispara a cascata de cortisol e adrenalina que nos coloca em modo de luta, fuga ou congelamento.
O resultado? Na hora do conflito, perdemos parcialmente o acesso ao córtex pré-frontal — nossa capacidade de raciocinar, ter empatia, ouvir com abertura. E assim a conversa que poderia ser uma oportunidade de entendimento mútuo se transforma numa batalha em que dois sistemas nervosos estressados tentam se regular ao mesmo tempo, geralmente às custas um do outro.
Entender esse mecanismo não é uma desculpa para os padrões destrutivos de conflito. É o ponto de partida para transformá-los. Porque quando sabemos o que está acontecendo no cérebro, podemos começar a intervir de forma consciente — criando as condições neurobiológicas necessárias para um diálogo real.
Os tipos de conflitos relacionais trabalhados no livro
O livro aborda os conflitos relacionais mais comuns e mais desgastantes que aparecem na clínica e na vida cotidiana:
Conflitos de casal
Os padrões que John Gottman chamou de os "quatro cavaleiros" — crítica, desprezo, defensividade e stonewalling (afastamento) — e como a TCC e a teoria do apego oferecem caminhos concretos para substituí-los por padrões que fortalecem o vínculo em vez de corroê-lo.
Conflitos entre gerações
A complexidade única dos conflitos entre pais e filhos adultos, onde histórias de décadas se entrelaçam com expectativas não ditas e papéis que resistem à mudança. Como renegociar esses vínculos sem romper com o que há de precioso neles.
Conflitos no ambiente de trabalho
Como os padrões de relacionamento que aprendemos na família aparecem — disfarçados, mas reconhecíveis — nos relacionamentos profissionais. E como desenvolver maturidade emocional suficiente para navegar esses conflitos com assertividade e preservação dos vínculos necessários.
O conflito interno
A dimensão mais negligenciada — e a mais fundamental. O conflito que temos conosco mesmas: as partes que se contradizem, os valores que entram em choque, as necessidades que não conseguimos admitir nem para nós mesmas. Sem resolver esse conflito interno, qualquer resolução de conflito externo é superficial.
"Todo conflito externo tem um espelho interno. Antes de perguntar 'o que há de errado com o outro?', vale sempre perguntar: 'o que essa situação está ativando em mim, e por quê?'"
Como a TCC transforma o conflito em conexão
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas excepcionalmente práticas para a transformação dos conflitos relacionais. No livro, apresento as principais adaptadas para o contexto dos relacionamentos do dia a dia:
- Identificação dos pensamentos automáticos relacionais. Aqueles que surgem instantaneamente numa situação de conflito — "ela está fazendo isso de propósito", "ele nunca me leva a sério", "isso sempre vai ser assim" — e que colorem toda a interpretação da situação antes que qualquer dado real seja coletado.
- Análise de custo-benefício. O que ganhamos e o que perdemos ao manter determinado padrão de resposta ao conflito? Essa análise, feita com honestidade, frequentemente revela que o custo de certas estratégias de defesa é muito maior do que parece.
- Experimentos comportamentais relacionais. Pequenas mudanças deliberadas no comportamento — responder diferente do habitual numa situação de tensão — que geram dados sobre o que realmente acontece quando o padrão é quebrado.
- Comunicação não violenta integrada. A linguagem de necessidades e sentimentos — proposta originalmente por Marshall Rosenberg — adaptada à realidade clínica e enriquecida com embasamento neurológico.
O lançamento na 96ª Feira do Livro de Lisboa
Lançar Elos Emocionais na Feira do Livro de Lisboa — um dos eventos literários mais tradicionais e amados de Portugal, realizado anualmente no Parque Eduardo VII — foi uma experiência que fica marcada. A feira, que reuniu em sua 96ª edição milhares de leitores ao longo de semanas, criou o contexto perfeito para um livro que fala sobre encontros e vínculos.
O lançamento aconteceu num domingo de início de junho, quando o parque estava repleto de famílias, casais e amigos que dividiam o prazer da leitura ao sol de Lisboa. Havia uma poesia quase irresistível naquele cenário — um livro sobre conexão sendo lançado num espaço em que a cidade inteira se conectava em torno dos livros.
A sessão de apresentação contou com depoimentos tocantes de leitoras de Incrível Mente Mulher que estavam presentes — mulheres que contaram como o primeiro livro havia transformado aspectos de seus relacionamentos, e que vieram especialmente para testemunhar o nascimento do segundo. Esse elo entre os dois livros — e entre as pessoas que o percurso foi criando — foi o mais belo presente daquele dia.
A mensagem que atravessa cada página
Se Incrível Mente Mulher foi um convite ao autoconhecimento, Elos Emocionais é um convite ao conhecimento do outro — com tudo que isso exige de humildade, curiosidade e coragem. Porque entender que o outro também tem uma amígdala hiperativa, também carrega histórias não resolvidas, também age a partir de estratégias de sobrevivência que aprendeu muito antes de nos conhecer — isso muda tudo.
Não elimina o conflito. Não transforma a relação numa fantasia sem atrito. Mas cria as condições para que o conflito seja atravessado de uma forma diferente — com mais abertura, mais compaixão, mais curiosidade sobre o que está por baixo da superfície. E é exatamente aí, nessa travessia corajosa, que os elos mais profundos se formam.
Referências Bibliográficas
Gottman, J. M., & Silver, N. (1999). The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown Publishers.
Rosenberg, M. B. (2003). Nonviolent Communication: A Language of Life. PuddleDancer Press.
Johnson, S. M. (2004). The Practice of Emotionally Focused Couple Therapy: Creating Connection (2nd ed.). Brunner-Routledge.
Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton.
Beck, A. T. (1988). Love Is Never Enough: How Couples Can Overcome Misunderstandings, Resolve Conflicts, and Solve Relationship Problems. Harper & Row.
Bowlby, J. (1988). A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. Basic Books.
Seus relacionamentos merecem mais profundidade.
Se os conflitos nos seus vínculos mais importantes estão te desgastando, podemos trabalhar juntas para transformar esses padrões. A terapia cria o espaço seguro para esse trabalho.
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